ORDEM OU PROGRESSO


Por Rafael Beck

       Em um daqueles programas de auditório, onde alguém pode levar o prêmio de um milhão de reais, o apresentador pergunta ao participante quantas letras tem no escrito da bandeira do Brasil. O participante responde, com toda certeza, dezesseis letras. O apresentador confirma: “Você tem certeza?”. Ao passo que o participante responde: “Claro, dezesseis letras: Ordem ou Progresso, não é isso?”. Este poderia ser um dos vídeos do filme de arquivo Educação, de Cezar Migliorin e Isaac Pipano. O média metragem é uma colagem de vídeos facilmente encontrados na internet. A cena citada a cima, não está presente nele, mas outras, igualmente tão irônica, estão. O filme segue uma narrativa a partir da ocupação de uma escola por alunos de ensino fundamental e médio, e critica o que se fez e se faz com a educação no Brasil.
       Uma oficial de justiça grita em frente a uma escola ocupada exigindo que os alunos a desocupem; a Fundação Lemem apresenta suas “técnicas de educação”; métodos de “segurança” (para não dizer vigilância) dentro e fora das escolas controlam a vida dos alunos e dos professores, do que se diz e o que se faz na sala de aula e nos corredores; atesta-se que pais e mães esperam que escola, que tem papel de escolarizar, eduque seus filhos e suas filhas; alguém fala sobre o “kit gay” ser uma forma de influenciar os jovens e as jovens e “se tornarem homossexuais”; retoma-se a ideia do “escola sem partido” que tem por objetivo controlar o que professores e professoras falam em sala de aula. Manifesta-se, claramente, um desejo de que as crianças e os jovens não tenham acesso livre ao conhecimento como deveriam. Desejo vindo de uma maioria composta por homens brancos, ricos e heterossexuais, maioria no congresso e nas instituições públicas, que estabelecem um sistema controlado de todas as formas por eles. ORDEM.
       Jovens, garotos e garotas, ocupam uma escola e levantam cartazes com as reivindicações para que as condições da educação no Brasil sejam melhoradas: as estruturas das escolas, a qualificação de professores e professoras, os materiais didáticos, a liberdade de expressão. Estão ali para falar por si mesmos, para revindicar seus direitos e alegar que não existem representantes de crianças e jovens nos poderes legislativo, executivo e judiciário no país. Pedem para que alguém olhe por eles, os escute, dê a atenção que a juventude necessita. Detentores do conhecimento dos seus direitos, estão ali para garanti-los, já que parece que ninguém mais o fará. E não estão dispostos a deixarem seus postos antes que alguma coisa aconteça. O que querem? PROGRESSO.
       Educação oscila entre apresentar aquilo que representa a ORDEM no país, e aquilo que representa o PROGRESSO. Por vezes, revela-se a ORDEM citada acima, aquela que os políticos e grandes empresários do Brasil desejam para que, como resultado o PROGRESSO esperado por eles, permaneçam no poder. Por vezes, revela-se a ORDEM estabelecida pelos estudantes, onde o PROGRESSO se dará quando o povo brasileiro puder ter a garantia de que ele é prioridade no pensamento daqueles que ocupam os cargos políticos. Em um, ORDEM e PROGRESSO estão à favor desses, mais ou menos, quatrocentos homens que governam o país como bem entendem, no outro, estão a favor do povo. Durante o filme, a ocupação na escola é o fio condutor que leva a todos os outros vídeos que denunciarão a educação defasada, que ironizarão as medidas adotadas pelo governo para mascarar uma melhora na educação, que apresentarão realidades impensáveis sobre a tentativa do sistema permanecer em pé.
       O que podemos conferir, nesse contexto, é uma batalha entre aqueles que acreditam que o sistema político vigente no Brasil está correto e que nada pode modificá-lo e aqueles que definem o sistema político vigente como ultrapassado e que desejam mudanças. De um lado, homens que fazem a disciplina e a hierarquia ser cumprida, do outro, diversos seres humanos (independente do gênero, da sexualidade, da raça, da cor, da origem) falando de forma cansada tudo aquilo que é bastante óbvio. E, como se não bastasse, esses homens – mais interessados nos lucros monetários – transformam a educação em um comércio rentável e inacreditável. Na escola ocupada, uma oficial de justiça mulher, cercada por dezenas de homens que estão do lado dela e da “justiça”. Do outro lado do portão, ocupando a escola, jovens que desejam um futuro melhor, mas que nunca são escutados.
       A oficial de justiça fala com os alunos como quem fala com seres humanos incapazes de compreender o que se fala. A oficial fala como a professora de um dos vídeos das “técnicas de educação” da Fundação Lemem, que trata os alunos como animais irracionais, incapazes de pensar e refletir sobre nada, apenas funcionar como máquinas. A oficial de justiça, sem vergonha nenhuma, ainda pergunta, ao dizer que a justiça espera uma futura desocupação pacífica, se aqueles jovens sabem o português. Ela acha que sabe a resposta. Ela tem esperança que a única coisa que esses jovens saibam seja o que a escola os ensina – até por que, é isso que ocorre com a maioria. Engano dela. Mas, como se não bastasse, a oficial, ainda no início do filme, diz, como uma boa samaritana: “esperamos bom senso de vocês”. Bom senso, quem espera são crianças e jovens que estudam e que almejam um futuro melhor. E que esse bom senso venha desses lugares que tanto influenciam e comandam nosso país: o Estado e a mídia. Mas deles parece que só podemos esperar egoísmo, preconceito, ganância, intolerância e guerra.
       Voltando ao exemplo da professora do vídeo da Fundação Lemem, as “técnicas de educação” se tornam uma tentativa de adivinhação. As crianças escrevem, por exemplo, para colocar suas ideias no papel, porque não parece possível se preparar para conversar sem a escrita. O uso da palavra dita, a oralidade não é suficiente. E é o papel apenas com escritos que os policiais, os oficiais de justiça acham que são suficientes para um diálogo entre os alunos que ocupam as escolas e o Estado, que se faz presente de forma negligente e absurda: ninguém está interessado na situação das crianças. Esses jovens se tornam uma ameaça tão grande, que a solução em São Paulo, por exemplo, é dividir as escolas por faixa etária, para que, segundo o secretário de educação, a mãe não se preocupe que os filhos estejam em escolas com alunos de idades diferentes dos seus. E os mesmos dados que a secretaria tem para justificar essas mudanças, não parecem ser suficientes para atender às demandas dos alunos, das escolas que estão ocupadas. Essas demandas tanto não são atendidas, quanto a mídia não se preocupa em revelar por que motivos os alunos e as alunas ocupam as escolas da rede estadual de ensino de São Paulo. E pior, fazem questão de invalidar os argumentos dos alunos, usando termos que reforcem a ideia de que as ocupações são caracterizadas como vandalismo e arruaça. 
       E já que falamos de educação, escolarização, alfabetização, do uso da palavra, recorramos à gramática portuguesa e analisemos a situação social através dessa nossa língua mãe que tantas possibilidades nos traz. Figuras como o diretor, o ministro, o deputado, o senador, o juiz são colocados como os grandes responsáveis e mantenedores da paz no mundo. Nada de mulheres – a não ser, quando estão intermediando e são usadas como figuras que remetam à maternidade de forma apelativa. Nada de diálogos. Homens brancos, heterossexuais, cis-gênero mandam e desmandam no Brasil e comprovam que as palavras tão belamente escritas na bandeira da República Federativa do Brasil não são ligadas por uma conjunção aditiva, e sim, por uma conjunção transformada em alternativa.
       Como o participante do espetáculo que dá um milhão de reais, não falamos – nem pensamos - mais de “ORDEM mais PROGRESSO”, falamos de “ORDEM ou PROGRESSO”.  E mesmo que pareça óbvio que a tentativa desses homens de instaurar a ORDEM no país é para que não haja PROGRESSO e, assim, eles continuem a serem reeleitos ano após ano, eles conseguem reverter a situação e convencer cidadãos e cidadãs de que, sem ORDEM, não há PROGRESSO. Que sem ORDEM, não iremos avançar em nada. E, para mascarar toda a situação, propõe-se que o PROGRESSO esteja ligado mais ao uso de tablets em sala de aula pelos professores e alunos, do que ao desenvolvimento sensitivo através das artes; propõe-se que o PROGRESSO esteja na elaboração de regras que amarrem os alunos aos mesmos pensamentos, e não nos métodos que criem seres humanos livres e criativos.
       Propõe-se, por fim, que sejam criados jovens frios que se preocupam com um futuro que tem relação com dinheiro, formação (mesmo que não se goste do que se faz) e obediências às leis e às morais. Deve-se encher os bancos de dinheiro. Deve-se votar nos políticos que governam desde que o Brasil saiu da ditadura militar. Deve-se estimular métodos de castração dos e das jovens que estão na tenra idade onde deviam se divertir, criar, experimentar. Deve-se julgar todo e qualquer ser humano que transgride em qualquer situação (e nisso, incluem-se mulheres, negros, índios, a classe baixa e a comunidade LGBT, que querem igualdade nos salários, nas universidades, nas leis). Cria-se jovens que entendem como paz a manutenção da ORDEM, e não a igualdade. Que não se importam com os outros e que deixam a sensibilidade, a bondade, o altruísmo com a passagem da juventude para a vida adulta. Que optam pela ORDEM, em detrimento do PROGRESSO.

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